Manuel Emílio do Porto, filho de Manuel Pereira do Porto e de Laureana Emília Pimentel nasce no lugar da Ribeirinha, freguesia da Piedade do Pico, a 20 de dezembro de 1935.
É pela mão de D. José Vieira Alvernaz e de seu irmão Monsenhor Manuel Alvernaz que dá entra da e faz os seus estudos no Seminário Diocesano de Angra do Heroísmo. Aluno distinto, sobretudo na disciplina de Canto e Composição, para a qual revela desde cedo particular interesse e aptidão, compôs temas musicais que lhe valeram receber o primeiro e segundo prémios, da Academia Dr. Manuel Cardoso do Couto, o primeiro prémio e menção honrosa da Academia D. Bernardo de Vasconcelos, assim como a batuta do maestro Edmundo Machado de Oliveira para a regência da Capela do Seminário.
Forma-se em Teologia em 1962, recebe as Ordens Sacras, serve a Igreja, primeiro na atividade paroquial e posteriormente como Capelão militar, em Angola, até ao final de 1975.O comandante do Batalhão em que serviu nas patentes de alferes, tenente e capitão louvou-o pelas suas qualidades militares e morais: “oficial inteligente, de conhecimentos vastos e de uma cultura musical apreciável”, “uma alma aberta às vicissitudes e dificuldades” que muitos então viviam, recebendo “de todos o respeito, a admiração e a amizade”.
Em 1975 é eleito Vereador da Câmara Municipal das Lajes do Pico. No mesmo ano é, deputado independente do Partido Socialista, desempenhando funções no Parlamento Regional nas duas primeiras legislaturas. Exerce os cargos de Secretário da Mesa da Assembleia Regional e da Comissão de Assuntos Políticos e Administrativos.
Em 1976, dispensado das Ordens, dedica-se ao ensino nas Lajes. Primeiro no Externato Lacerda Machado, depois na Escola Preparatória/Secundária, como
professor de Língua Portuguesa e Educação Musical. Em 1986, fazendo parte do Conselho Diretivo, e para melhor favorecer a população do concelho, cria com outros dois colegas, o Ensino Secundário na mesma escola. Durante o percurso escolar, e para atualizar e desenvolver a sua atividade musical que exerceu até à reforma, faz o seu Complemento de Habilitações na Escola Superior de Educação de Setúbal. Paralelamente com a atividade letiva, vai constituindo grupos corais infantis e juvenis, bem como o Grupo de Cantares de Professores. Organiza e ensaia Ranchos de Natal e de Reis e dá o seu contributo a outros com temas que compôs e harmonizou. Em 1997, foi convidado para Diretor Artístico do festival “Baleia de Marfim”, tendo deixado posteriormente a função de maestro para apenas colaborar na qualidade de compositor. Ao todo são dezassete canções da sua autoria até 2011. É premiado diversas vezes, não só nas Lajes, como nos festivais da Povoação e da Figueira da Foz, onde recebe o Prémio de Melhor Música na Gala Internacional dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz.
Cria e dirige capelas litúrgicas e grupos corais, nomeadamente na paróquia da Conceição, Angra do Heroísmo, 1962-1964; S. Caetano (Pico), 1964-1969; Sanza Pombo (Angola), 1969-1971; Ponta Delgada, 1971-1973; Cabinda, 1973-1975. A partir de 1976, nas Lajes, na Ribeirinha e em S. Mateus, no Santuário do Bom Jesus. Aí, durante cerca de duas décadas, reintroduz no ciclo festivo, não só os textos clássicos tradicionais, como o tríptico de Tomás Borba, mas sobretudo renova o canto litúrgico, em parte com temas da sua autoria.
Quando jovem, ainda na década de sessenta (1968-1969), foi Mestre da Filarmónica Recreio dos Pastores de S. João e mais tarde da Filarmónica Liberdade Lajense, nas Lajes.
Em 1983, no centenário de Lurdes, forma o Grupo Coral das Lajes do Pico, cujo objectivo era litúrgico e cultural, e esteve integrado durante vários anos na Associação Pe. José de Ávila. Mais tarde, por iniciativa do seu Director Artístico, mesmo contra algumas vontades, “foi feita escritura pública de constituição formal de associação de índole cultural, dando-lhe identidade própria, tornando-o assim pessoa colectiva, em 30/10/2007”. Com o aparecimento deste grupo, fora reconhecido pelo Governo Regional como Instituição de Utilidade Pública, “há a consciência de que algo aconteceu de importante e que marcou a história local. Na igreja e fora dela. É o reconhecimento generalizado espalhado pela ilha e por muita parte. Fora da Igreja terá sido, para alguns a maior manifestação cultural dos últimos 25 anos nas Lajes do Pico…”.
Na sua actividade, ao longo de 32 anos, para além de diversas actuações nos Açores, no continente português e no estrangeiro, deixa parte do seu repertório registado, primeiramente numa gravação realizada pela RDP-Açores em Setembro de 1983, a que se seguiriam cinco CD’s – Música Popular Açoriana (1996); Montanha do meu Destino, (2001); Música em Tempo de Festa (2005); (CD duplo: CD1 – temas de carácter tradicional e popular; CD2 – temática religiosa) e por fim, os CD’s – Espírito Santo e Natal (2011). Colaborou, entretanto, nos CD’s – Os Melhores Coros Amadores da Região, não só com o Grupo Coral das Lajes mas sobretudo com as canções que harmonizou. Das dezasseis constantes do 1.º CD, catorze tem harmonizações da sua autoria, bem como ainda duas do 2.º CD.
Para além da composição de textos sacros para a liturgia, harmoniza e compõe um significativo número de temas, quer da música tradicional quer da nova música açoriana, quer do fado: Montanha do meu Destino e Bom Jesus Milagroso (Oração do Peregrino), bem como a harmonização coral de Natal na província neva, de Fernando Pessoa e Machado Soares. De referência ainda é a célebre harmonização das Ilhas de Bruma, bem como os arranjos corais do Hino Nacional, do Hino dos Açores e Hino do Espírito Santo, sendo da sua autoria, entre muitos outros, a composição do Hino de Santa Cecília, Hino ao Bom Jesus, Hino de S. João, Hino de Santo Antão, Vila Mãe (Hino às Lajes do Pico), Hino para a Filarmónica Recreio dos Pastores e do Hino da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste.
De temática diversificada é igualmente a colaboração jornalística: musical, religiosa, política, social e cultural. Colaborou nos jornais Ilha Maior e no Tribuna das Ilhas, com destaque para o Dever, através da coluna Farol da Ponta e no blog Alto dos Cedros. Nos seus artigos é um grande defensor da “Ponta da Ilha”. Para ele, como já fora para Nemésio, aquela é a sua “Terra Santa aproada a Sueste”. No seu Farol de afetos deu força e visibilidade a uma
Ponta esquecida, projetando sobre ela uma luz única, que só uma grande afeição é capaz de prodigalizar. Para a Piedade propõe o estatuto de Vila. Para a Ribeirinha – onde a pedido seu, quis ficar para sempre – para a sua Ribeirinha que fora elevada a freguesia a instâncias suas, enquanto deputado, vai o seu último ato de cidadania: uma petição dirigida ao Parlamento para que não seja extinta. Acompanha entusiasmado as Semanas Culturais (Semanas Com vida), participa e regista as atividades da Ribeirinha, da Piedade e da Calheta. Grande defensor das freguesias rurais, do valor histórico e do significado que elas representam na vida das populações, deixa escrito: “é um crime se alguma delas for banida do mapa”.
Publica os livros: Canções Populares Açoreanas (1994); Senhor, Levanta os Teus Olhos… (1999); O Meu Cancioneiro (2001); 25 anos a cantar – Grupo Coral das Lajes do Pico (2008); tendo ainda colaborado nos livros Grupos Corais e Instrumentais de Portugal, de Lauro Portugal, em 2007; Casa Santa Mimosa – Olhares sobre o Seminário de Angra (1950-1970), com os temas: “Música – Anos 50-60 do séc. XX” e “Epístola aos «estorninhos» que um dia passaram por Angra…”, publicado pelo Instituto Açoriano de Cultura, em 2014. Naquele ano de 1950, teria D. José Vieira Alvernaz antevisto os dotes humanos e musicais do jovem Manuel Emílio aquando da sua vinda da Índia, à
Ribeirinha do Pico, por breves dias? O que teria notado que o encaminha logo para o Seminário? As capacidades intelectuais? Um comportamento exemplar de que falaria mais tarde o Pe. Dr. José Piques Garcia, aquando da apresentação do livro Senhor, Levanta os Teus Olhos…? Uma ética de vida já visível na infância? Foi essa ética irrepreensível precisamente o que nos confidenciou um companheiro desses tempos, Manuel Jora. Um dia, na escola – conta-nos num momento de brincadeira que envolvia várias crianças, uma delas, Manuel Emílio, ao levantar-se, tropeça na pedra (ardósia) do José Rodrigues, que cai no chão, ficando em estilhaços. Ato contínuo, num movimento rápido, e sem dizer nada, Manuel Emílio, com aquela rapidez que o caracterizaria até ao fim da vida, corre a casa, e traz a sua pedra escolar que entrega ao colega, recolhendo em seguida, os cacos daquela que acidentalmente partira. Este simples gesto de criança, não seria já o sinal da sua ética de vida, o cerne da sua forte personalidade?
Não sabemos o que D. José viu nele. Sabemos sim, é que o jovem de então lhe ficou grato para sempre. E essa gratidão não se revelaria apenas em palavras, como testemunha a dedicatória de uma fotografia que ofereceu a D. José no final do curso, “em sinal de gratidão e reconhecimento”, mas sobretudo viria a manifestar-se particularmente durante os tempos difíceis vividos pelo Patriarca na Índia e no exílio que se seguiu em Angra, por não ter obedecido às ordens de Salazar. Em 1980, então deputado, Manuel Emílio Porto organiza uma petição de reconhecimento, pela atuação corajosa de D. José, quando as possessões portuguesas foram invadidas e anexadas à força pela União Indiana. E merecidamente, nesse mesmo ano, o Patriarca vem a receber a Grã-Cruz da Ordem do Infante, das mãos do Presidente da República, Ramalho Eanes.
Não deixa de ser significativo que o último ato público de Manuel Emílio Porto tenha sido uma sentida homenagem àquela figura veneranda, em Março de 2012, na sua Ribeirinha natal. Convidado por Maria Guiomar Lima, autora do livro José Vieira Alvernaz – Patriarca das Índias, Arcebispo de Goa e Damão – sentiu-se privilegiado por apresentá-lo, tendo-se emocionado deveras, não só a fazê-lo, – segundo disse, era a primeira vez que na Ribeirinha era apresentado um livro – mas também ao dirigir dois grupos que ainda mantinham a sua direção – o Coral das Lajes e o Coral da Paróquia (seria a última vez!) que participaram no acontecimento com um concerto final.
A música, na dimensão mais expressiva que é o canto – a voz é o instrumento musical por excelência –, para a qual o pai já o iniciara em menino, será sempre a companheira predileta da sua vida, nas celebrações religiosas e “nos momentos de descontração de entretenimento e de cultura”; a segunda preferência – a escrita –, embora por muito tempo arrumada na gaveta, não é esquecida, apenas ficando no subconsciente. E quando decide dar os primeiros passos, fá-lo de forma tímida, primeiro com pseudónimos: xyz, xp.com, depois com o nome de família J. Janeiro e, por fim, com o seu próprio nome.
Para além destas preferências, regista-se também a culinária e a jardinagem, entusiasmando-se no cultivo de flores e árvores de fruto, vivendo sempre próximo da natureza que a sua ilha lhe oferece. Tem gosto pelas viagens, que só tardiamente tem possibilidade de fazer. Fosse qual fosse o destino, santuário, cidade ou país (Santiago de Compostela, Monserrat, Mont Saint Michel, Roma, Terra Santa, Nápoles, Capri, S. Petersburgo ou Istambul), corre atrás das novidades musicais ou de outras clássicas que em jovem apreciara e agora pode adquirir, algumas que chegaria a harmonizar, como a canção napolitana – Santa Lúcia. As se mentes das plantas ou árvores exóticas são a sua predileção, que podiam estar no chão da rua, nas muralhas ou até na torre de Herodes em Jerusalém. Tudo o que é novidade quer trazer para a sua terra. É a ela que dedica um afeto forte e incondicional. E foi nela que decidiu – e gostava – de viver. Como se a Montanha fosse – e foi! – o seu destino.
É agraciado com o Grau de Comendador da Ordem de Mérito pelo Presidente da República Jorge Sampaio, em 2001, e com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico, pela Assembleia Regional dos Açores, em 2008.
Herdeiro de um sorriso franco e divertido, de gargalhadas sonoras que escarneciam e esconjuravam as situações mais ridículas, é a educação nos valores do trabalho e do estudo que lhe foram incutidos na infância, que pautam o caminho que lhe coube percorrer, agora confinado a duas datas.
Deixa a vida, em pleno ensaio, regendo o seu Grupo Coral e cantando com ele: “Lá no cimo da Montanha”, na Filarmónica Liberdade Lajense, às 22 horas, de 11 de Abril de 2012.
Na madrugada desse dia concluíra a sua “Epístola aos Estorninhos” (dirigida aos companheiros da primeira hora, e que acabaria por ser a homília da celebração litúrgica dos 150 anos do Seminário). Escrita num estilo irónico como gostava, por dar mais expressividade ao conteúdo, terminava inesperadamente em tom místico. “Acredito em Cristo Ressuscitado e no Seu Santo Espírito”. É que, apesar de dispensado das Ordens, e de se considerar um simples leigo que optara pelo casamento, nunca deixou de ser um homem da Igreja e um homem de Fé, a quem deu sempre a primazia. Basta recordar “a unção, a doçura, a religiosidade” que os seus cânticos conferiam ao ato litúrgico. Foi um homem que lutou até ao fim por uma Igreja coerente e íntegra. Por vezes de uma frontalidade admirável, não buscava concordâncias, nem pedia licença para destoar, quando convencido da sua razão, embora não fosse um homem convencido da sua importância. Finalmente, compreenderam essa linha de vida, os sacerdotes que celebraram as cerimónias exequiais. Que o fizeram em concordância com as Ordens Sagra das que recebera e com a dignidade e solenidade consentâneas ao momento e ao homem crente que ele sempre fora.
São memórias e registos de uma vida simples, que se foi humildemente multiplicando e que aqui ficam como testemunho para o tempo futuro.
O amigo Artur Goulart, olhando o trabalho incansável de uma vida, na busca do bem e da beleza, na procura da essência da palavra e da melodia que a sua alma continuamente conjuga e harmoniza, admirando essa labuta de sempre, ao saber que apressadamente partira para a sua última viagem, não se conteve que não dissesse: foi reger o Coro dos Anjos.
Maria de Jesus Maciel
